Empatia em baixa

Ontem assisti um vídeo no Youtube onde um gringo falava de maneira superficial sobre alguns políticos americanos (Bernie Sanders é um deles, o mais vocal) em busca de um salário mínimo de U$15/hr, e pedia para as pessoas deixarem suas opiniões nos comments.

Bom, vale lembrar que se o salário mínimo fosse ajustado de acordo com o standard of living americano deveria ser de U$21.16/hr. Ou seja, U$15 ainda é pouco, mas com certeza é bem melhor do que os U$7.25 em vigor em alguns estados.

Qualquer pessoa com um pouco de bom senso concorda que sim, claro, devemos exigir melhores salários. É impossível sobreviver dignamente ganhando tão pouco, ainda mais quando sabemos que companhias como o Walmart e outras gigantes da indústria fast-food tem uma margem de lucro astronômica e seus CEOs ganham infinitamente mais do que seus funcionários. Uma melhor distribuição dos lucros é o mínimo que deveríamos esperar de uma sociedade que busca o bem dos seus cidadãos, certo?

Para minha surpresa, a grande maioria das pessoas (o canal é direcionado a jovens de 16-24 anos) nos comentários se mostraram CONTRA: “se aumentarem o salário, vão robotizar tudo” (isso já esta previsto para acontecer nos próximos 5/10 anos, independente do aumento do salário mínimo); “é injusto eles ganharem 15 dólares quando eu fui para a faculdade e ganho apenas 14 como desenhista e ilustradora” (eu avisei que ela era underpaid e não deveria aceitar tal salário já que tinha faculdade); “minha mãe ganha apenas U$7.25, não acho justo outros ganharem mais” sendo que a mãe dele também seria beneficiada com a mudança…

Enfim, um verdadeiro shitty-show de opiniões que demonstram nenhum bom argumento contra o aumento de salário (tenho certeza que existem bons argumentos, só não os encontrei ali) mas esbanjam uma raiva inexplicável daqueles que eles consideram “piores”, que no caso são pessoas que trabalham em fast-food fritando hambúrgueres ou nos walmarts da vida, por exigirem melhores salários mas serem “preguiçosos” e não irem em busca de melhores empregos.

Poucos foram os comentários que citaram os salários milionários, ou como melhores salários aquecem a economia (as pessoas gastam mais quando ganham mais), ou que a robotização é inevitável, ou que os salários estão estagnados, e os poucos que fizeram essas observações, como eu, foram prontamente ignorados. É aquela sensação de “saia daqui com seu bom senso, me deixe com o que eu SINTO ser verdade“.

Fiquei abismada com a miopia (falei aqui no post de ontem sobre o documentário de Noam Chomsky), mas não totalmente surpresa. Além da miopia que os impede de ver que possivelmente seriam beneficiados pelas mudanças, existe a falta total de empatia com o outro ser humano, aquele desejo básico de que todas as pessoas possam ter uma vida decente e um trabalho que supra pelo menos suas necessidades básicas. O outro é muito abstrato, muito distante, “não tem nada a ver comigo”.

Parece até a desumanização do outro, um lance que fazem com os soldados quando eles vão a guerra para não sentirem culpa por estarem matando outros seres humanos: o outro não é como eu, o outro me detesta, o outro não respeita as mesmas coisas nem tem os mesmos valores que eu, logo, se for aniquilado eu não me importo.

É assustador perceber isso, mas o lado positivo é que sabendo o sintoma, é mais fácil ficar imune a essa lavagem cerebral, ao mesmo tempo que podemos ser os agentes de cura, tentando apontar onde as falhas de lógica e percepção estão acontecendo. E torcer para que tenham curiosidade o suficiente para tirarem as vendas e olharem os outros como iguais.

CIA, Trump e Russia + Guccifer 2.0

Depois da bomba do Washington Post de sexta-feira a noite sobre a CIA confirmar a possível participação da Russia como “mandante” do hacker que penetrou os servidores do partido democrático, passei boa parte da manhã de sábado lendo os relatórios da Crowdstrike (aqui e aqui) sobre o hackers e as explicações detalhadas do ocorrido no blog da ThreatConnect, aqui e aqui. Se você curte net security, é uma leitura fascinante. Super recomendo.

As partes mais chocantes de todo este cambalacho descrito no artigo da WaPo foram 1) a recusa de alguns republicanos em aceitar uma investigação em conjunto com os democratas e 2) a administração do Obama simplesmente rolar para o lado e sair do caminho. Ele é o Presidente e se existia uma suspeita de que os sujeitos queriam interferir com as eleições, uma vez que os republicanos se negassem a participar, ele deveria ter dado inicio a investigação mesmo assim.

C’mon, o que os republicanos iam fazer, bloquear alguma medida que ele ainda queira passar? Há! Chamar ele de traidor, muçulmano, ou sei lá o que mais? Na minha modesta opinião foi um show de fraqueza sem tamanho, de “vamos deixar como esta para ver como é que fica” e olha ai a caca toda vindo a tona agora. Sexta-feira Obama pede uma investigação que deve ser entregue até o outro fazer o juramento. Ah tá, como se o resultado desta investigação não vai ser totalmente enterrado pela próxima administração.

Enfim, Twitter estava pegando fogo no sábado com a notícia, pensei logo “agora vai heim”, as pessoas estão revoltadas e vão exigir explicações, de repente até o partido republicano vai cair matando em cima do cara de fuinha Mitch McConnell que foi veementemente contra a investigação proposta por Obama, mas hoje vejo que a coisa já está mais calma do que eu gostaria: Trump já fez seu show & dança, xingando CNN no sábado por coisas que Kellyanne falou no ar, mas como as pessoas meio que ignoraram, ele veio hoje (domingo) e fala que não vê nada errado em romper com “One China” e pronto, todo mundo sai cobrindo a nova abobrinha que o cara fala.

Total déficit de atenção da mídia que parece que ainda não aprendeu que ele faz isso para desviar a atenção daquilo que lhe incomoda. Ele ainda não tomou posse, então pode falar milhares de abobrinhas, mas assim que sentar a bunda no oval, vai mudar o tom, a gente sabe disso. O cara não sustenta de pé o que fala sentado! Claro que a China esta de orelha em pé, mas não vai fazer nada até ele tomar posse e ver o que ele vai realmente fazer.

Acredito que no momento o que mais precisamos é de foco: se não mantermos o olho na bola, ele e sua administração vão usar de todas as manobras para manter a gente distraído com bobagem, enquanto as perguntas e questionamentos sérios vão caindo bellow the fold.

Sei que isso é um rant, mas esta difícil de ver tantos profissionais que respeito mais perdidos do que criança em festinha de Halloween. Sem falar, claro, dos jornalistas que estão me surpreendendo com sua fixação em negar uma possível participação da Russia. Eu acho ótimo a gente manter um certo grau de ceticismo até que provas sejam publicadas (eu gostei muito dos relatórios acima, pois explicam direitinho ambos os cenários), mas fica feio continuar batendo o pé na defensiva negando a todo vapor que não é verdade. Pode ser que sim, pode ser que não, vamos esperar as provas é uma posição perfeita. É mentira e vocês são babacas por estarem cogitando isso é nada profissional, o tipo de comportamento que eu espero de jornalistas da Globo, não de jornalistas inteligentes e engajados. Um pouco chocada em ver isso, mas afinal, somos todos humanos né?

Bom, vamos ver como isso vai se desenrolar esta semana. Espero que com o passar do tempo a mídia páre de cobrir cada twite rídiculo deste senhor e volte a focar no que importa.

Sobre o presidente eleito…

Tenho pensando muito no resultado das eleições Americana. Bernie era o meu candidato, mas depois que ele perdeu para Hillary, mesmo não tendo simpatia por ela, Hillary se tornou minha opção, já que Trump estava a 180 graus distante de tudo que eu acho correto e moral.

Eu vivi o 9/11 e tudo que veio depois. Me lembro exatamente o mal-estar que senti quando vi o exército na Queensboro Bridge no dia 12 de setembro de 2001, barrando e inspecionando todos veículos que iam cruzar a ponte para Manhattan. Soube que a partir daquele momento as coisas iriam mudar, NYC e a América do dia 10 de Setembro tinham ficado para trás.

E como todos nós sabemos, as mudanças vieram, muitas delas abriram portas que jamais deveriam ter sido abertas, como a guerra no Iraque e o programa de vigilância nacional.

Hoje eu sinto exatamente o mesmo mal-estar. Iniciamos um novo capítulo, e tenho medo do que pode acontecer. Minha preocupação inicial é com meus amigos que não se encaixam no perfil de “pessoas boas” do presidente eleito.

Em seguida vem a preocupação com o clima, com os direitos adquiridos pela comunidade LGBT que podem ver retrocesso em suas conquistas (como o reverso da lei anti-discriminação no trabalho), com os direitos reprodutivo das mulheres (leis sobre o aborto e obrigação dos seguros de saúde pagarem por anticoncepcionais) e perseguição aos muçulmanos, negros e hispanos. Sem falar no Obamacare, que pode deixar mais de 20 milhões de pessoas sem cobertura.

Existe a preocupação com fatores ainda maiores, como proliferação de armas nucleares em países que não devem ter acesso a este tipo de armamento e aliança com regimes “sombrios” onde América simplesmente promete olhar para o outro lado enquanto países tem sua soberania invadida e população massacrada.

Estou tentando não me precipitar, não pensar o pior, e me ater ao fato de que o presidente eleito é um bozo que provavelmente não vai conseguir fazer 1/3 das coisas que prometeu.

Minha esperança esta na população. Apesar do choque de saber que milhões de pessoas que se dizem não xenófobos, racistas, anti-semitas e misóginos não se importam em eleger um sujeito que seja; e aqueles outros milhões que são de fato racistas, xenófobos, anti-semitas e misóginos e não tem vergonha nenhuma de admitirem, temos a esmagadora maioria que não se encaixa em nenhum destes 2 grupos, que sabe distinguir o certo / errado, que não deseja que todos vivam de acordo com sua filosofia de vida, que possui senso de cidadania e comunidade e ainda acredita naquela máxima “ame o próximo como a si mesmo”, mesmo que essa esmagadora maioria não tenha aparecido para votar.

Estou super confiante de que, ao contrário dos brasileiros, os americanos tem um história de luta pelos seus direitos e não vão simplesmente ficar sentados vendo seu país ser destruído por um narcisista alaranjado. As pessoas vão se levantar, vão as ruas, vão lutar contra o que é errado.

É isso que esta me sustentando no momento.

Semana de horror

Estou dando um tempo das mídias sociais, principalmente Twitter. Com tanto horror que aconteceu esta semana, seja no Brasil, no US, e enfim, no mundo, a impressão que tenho é que cada vez que uma tragédia ocorre as ratazanas saem dos escombros para vomitar seu ódio.

Que horror o que aconteceu em Orlando! E claro, com os corpos ainda quentes e detalhes do ataque nebulosos, vem o babaca mor, trump, dar pitacos, com sua xenofobia e narcisismo que eu simplesmente não tolero mais. E Venezuela, um caos total: imagine não ter comida para comprar? E o assassinato sem sentido da parlamentar britânica Jo Cox, e claro, a crise no Brasil: corrupção, Rio de Janeiro quebrado, corrupção.

Ler notícia hoje em dia é pedir para passar raiva, nojo, apreensão e tristeza e ter a confirmação de que o ser humano é capaz das piores torpezas. Sempre faço o equilíbrio: penso nas pessoas que estão fazendo coisas boas, que estão ajudando as pessoas desfavorecidas, que estão lutando por um mundo melhor, que estão tentando trazer um pouco de luz a esse porão escuro.

Tenho certeza de que são milhares de pessoas distribuindo ajuda e apoio ao redor do mundo, mas assim como Jo Cox, uma mulher que lutava por coisas corretas e pelo little guy, são pessoas que nunca ouvimos falar porque só o que importa para a mídia são os vômitos raivosos de tipos como trump. Gente decente fazendo a coisa certa não dá ibope.

Sobre Brasil, me surpreende como a população ainda não se rebelou de maneira violenta contra todas as coisas erradas que permeiam a nação. Sou contra toda e qualquer violência e acredito que a melhor maneira de mudar a sociedade é mudando a nós mesmos. “Seja a mudança que você quer ver no mundo” disse Gandhi.

Porém mesmo acreditando na paz, chega uma hora em que é difícil controlar a bílis e a vontade é sair no braço. Taí a necessidade do auto-controle e do step back. Eu pessoalmente não quero sair no pau com os políticos canalhas, mesmo passando muita raiva ao ver a cara deslavada de muitos que “mentem que nem sentem”. Gostaria que a justiça fosse feita e que eles tivessem a pena merecida por fraudar mais de 200 milhões de brasileiros. Mas infelizmente justiça no Brasil é uma quimera. E a decepção acumula, se junta a raiva. E esse sentimento internalizado acaba me fazendo um mal danado: insônia, irritabilidade, sentimento de impotência, falta de apetite, tristeza. Engolir sapo não é fácil.

Enfim. Que semana de horror! Que mês de horror! Arrisco até a dizer, que ano de horror.

Ressaca política

Estou de ressaca política. Não aguento mais as pessoas falando de política como se estivessem falando de futebol ou BBB. Na boa, já deu. Ponderei em escrever sobre isso, mas não consegui segurar: estou de saco cheio.

Mas entenda, não estou de saco cheio de política. Sim, what a fucking mess, mas na minha opinião política deveria ser ensinada na escola, já que temos que conviver com as consequências dela, quer você queira, quer não. É importante saber o que os governantes fazem, como votam, quais medidas querem passar, como estão representando nossos interessantes e se ESTÃO de fato nos representando.

E claro, estamos vivendo um momento importantíssimo. Todo esse interesse sobre política nestes últimos tempos é o que de mais saudável aconteceu na última década no Brasil, mas agora precisamos melhorar a qualidade do debate.

Vejo muitos que não passam da manchete e já se acham aptos a dar seminário sobre o assunto. Política, como quase tudo na vida, é um tópico cheio de nuances. É preciso ir além da manchete sensacionalista e ás vezes ir atrás das lacunas que a matéria, por baixa qualidade ou interesse pessoal, deixou vazia. É aquele lance de olhar a imagem toda, não focar simplesmente num canto.

Facebook parece ser o refúgio dos novos “cientistas políticos” sabichões. Textão (quase sempre com erros gramaticais) onde o/a autor(a) vomita toda sua rasa retórica. Não existe nada mais brochante do que descobrir que aquela pessoa que você achava interessante 1) não sabe escrever e 2) não sabe do que esta falando. É aquele banho de água fria do qual raramente consigo me recuperar. Felizmente eu DETESTO fb e posso passar meses sem entrar, o que minimiza as decepções. Mesmo assim o discurso pobre acaba vazando para o Twitter e outras mídias sociais, para engrossar o coro dos boçais locais, claro.

Ressaca política

E é exatemente disso que estou de saco cheio: argumentos vazios, falta de informação ou informação torta ou errada ou mentirosa, gente se atacando gratuitamente, uma certa negação da reflexão. Hoje em dia é tudo a toque de caixa, mas é preciso um pouco de tempo para ponderar as ramificações quando tratamos de assuntos que tocam a TODOS os brasileiros, sem exceção.

Política não é fácil, eu gosto do tópico e leio com frequência. Sou uma pessoa bem informada, e me considero inteligente. Mesmo assim em vários momentos eu não me sinto informada o suficiente para emitir um parecer. Posso dar a minha opinião, mas friso que é só isso, minha opinião. Pode estar certa, pode estar errada. Posso, ao saber de detalhes que antes eram desconhecidos, mudar meu ponto de vista.

E taí outro problema, além de argumentos superficiais, muita gente esta engessada na sua “posição”. A situação é dinâmica, mas tem gente que não arreda pé. Cimentados, congelados. Múmias?

Isso me lembra aquele tidbit que aconteceu entre um cientista ateísta e um religioso, onde o cientista perguntou ao religioso se diante de provas de que não existe deus ele acreditaria, ao que o religioso disse que mesmo com provas ele continuaria acreditando em deus, e perguntou ao cientista se ele tivesse provas da existência de deus, se ele acreditaria, e o cientista ateu respondeu “se as provas forem irrefutáveis, eu admito estar errado.”

É este fervor cego que paralisa e empobrece o diálogo, e que na minha opinião não tem lugar em assuntos sérios. Falta aquela humildade que faz de nós eternos estudantes e sobra a soberba de quem acha que tudo sabe. Ou como já disse alguém mais inteligente:

O problema fundamental é que no mundo moderno os estúpidos são convencidos, enquanto os inteligentes estão cheios de dúvida.
– Bertrand Russell

Como assim, Geraldo Alckmin?

Como assim, Geraldo Alckmin? Confesso que estou um pouco confusa. Não era o digníssimo que estava com Aécio Neves no dia 13/03/2016 no Palácio dos Bandeirantes, para juntos irem ao protesto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff na Avenida Paulista? Aquele triste domingo, lembra, onde os seus semelhantes, que deveriam tê-lo recebido de braços abertos, mas como que por mágica ou Dom Perignon, tiveram um momento de lucidez e acabaram hostilizando você e Aécio?

Pois senhor governador, até outro dia estavas a pedir a cabeça, perdão, o impeachment da presidente Dilma Rousseff junto com vários colegas, para agora, no dia 21/04/2016 em uma reunião com grandes empresários, dizer que falta um motivo para o impeachment e se Dilma cair por razão frágil, como as pedaladas fiscais, existe risco para a democracia?

Poxa senhor governador, assim não dá para te entender! Será que a vaia daquele domingo baixou seu facho? Ou talvez as multidões que são contra o impeachment amoleceram esse coração? Ou quem sabe, jornalistas de peso e respeito do mundo todo, com suas análises certeiras começaram a lhe abrir os olhos? Ou ver como os colegas, fanáticos ensandecidos, mordem a mão que lhes alimenta, lhe meteu aquele medinho de que talvez a sua seja a próxima merenda? Será que brotou o bom senso ou foi só a auto-preservação que bateu forte?

Enfim, Geraldo Alckmin, mudaste de opinião. Excelente! Mas fica a dica: seja menos frívolo e leviano nos seus posicionamentos futuros, principalmente os que envolverem a vida de milhões de brasileiros.

 

Brasil, Impeachment e Eleições

Domingo assisti a votação do impeachment que esta acontecendo no Brasil. Dizer que fiquei desapontada com a maioria das coisas que ouvi é pouco. Fiquei horrorizada com a falta de decoro, a ausência de sobriedade e o grave display de “vale tudo” demonstrado pela esmagadora maioria. Quase todos citando deus, falando da família brasileira (?), outros urrando contra a corrupção mesmo com processos de corrupção nas costas, uns segurando plaquinha de “tchau querida” que já seria de péssimo gosto num estádio esportivo, e que absolutamente não deveriam estar num momento sério como a votação de um impeachment. Isso sem falar nos dois, pai e filho, que “bateram continência” a um conhecido torturador e ao ano de 1964 e o que ele representa na história do Brasil. Onde eu esperava compostura e lucidez, vi exatamente o contrário.

Alguns podem dizer que Brasil é isso mesmo, que estou sendo ingênua, que é claro que os políticos iriam usar aqueles 15 segundos para aparecer e fazer da votação seu trampolim. Podem dizer também que é óbvio esses políticos se comportarem assim, eles são o espelho da sociedade e basta olhar ao redor para confirmar isso. Ou para sedimentar ainda mais os prejulgamentos, dizer que esses sujeitos foram eleitos pelo povo, então aquela máxima se encaixa: o povo tem o político que merece.

Embora muita gente pareça ter entrado num transe hipnótico que lhe impede de compreender o outro, ignorando tudo que não for de acordo com aquilo que já decidiu ser a verdade, eu acredito que tem muito mais gente esclarecida hoje do que no passado. Excluindo os religiosos extremistas com os quais não consigo conversar, constantemente me deparo com a lucidez e compreensão do “estado das coisas” de pessoas que carregam nas costas a culpa de, supostamente, terem dado seu voto a tantos políticos canalhas.

Mas foi surpreendente descobrir que, daqueles 513 de domingo, apenas 36 se elegeram com seus próprios votos e todos os outros foram “puxados” pelas suas chapas. Eu não sabia destas tecnicalidades, mas aprendi num artigo no site da Agência Câmara Notícias que funciona assim, e eu cito:

“Com 1,52 milhão de votos, Russomanno foi o deputado mais votado de São Paulo e “puxou” quatro candidatos para a Câmara: além de Fausto Pinato, ele ajudou a eleger o cantor sertanejo Sergio Reis (45,3 mil votos); Beto Mansur (31,3 mil) e Marcelo Squasoni (30,3 mil). Todos são do PRB, já que o partido não fez coligação.

O segundo colocado em São Paulo, deputado Tiririca (PR), teve pouco mais de 1 milhão de votos e elegeu sozinho dois deputados, além de si próprio: Capitão Augusto (46,9 mil votos) e Miguel Lombardi (32 mil), ambos do PR, que também não se coligou.”

Ficou claro que com este “sistema proporcional” muitas pessoas se elegem com um número de votos inexpressivo, enquanto outros que receberam maior número de votos não se elegem. Por exemplo, o deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB) recebeu 106,6 mil votos em São Paulo, mas não foi reeleito. Já o candidato Fausto Pinato (PRB) foi eleito com 22 mil votos por causa da votação expressiva de Celso Russomanno, do mesmo partido.

Isso mostra que se você entra numa chapa com um deputado forte e/ou muito conhecido, que vai ganhar muitos votos (por exemplo, Tiririca), pode se eleger porque é “puxado“, mesmo que tiver 10 mil votos. Se eleger assim é relativamente fácil, já que você não precisa nem convencer milhares de pessoas a votar em você: o que é preciso é usar a cabeça, as amizades e conecções feitas ao longo dos anos de puxa-saquismo, fazer bons conchavos e entrar numa chapa vencedora.

Brasil, Impeachment e Eleições

Hoje fui linkar o artigo original no site da Câmara e, surpresa!, ele foi EDITADO. Até mesmo o título do artigo mudou de “Apenas 36 deputados se elegeram com seus próprios votos“, que você pode ver ainda consta na URL da página para “Eleição para a Câmara dos Deputados segue o modelo proporcional previsto na Constituição“. Tiraram os exemplos de Russomano e Tiririca e  colocaram a explicacão do TSE de como funciona a votacão.

Por que mudaram o artigo? Tire suas próprias conclusões…

O importante é lembrar deste fator nas próximas eleições e sempre verificar quem esta na chapa do seu candidato, pois junto com aquele preferido você pode ajudar a eleger um monstro/corrupto/incompetente/cabra safado. É legal ressaltar que a grande maioria destes senhores e senhoras eleitos não estão lá por escolha da maioria, mas sim porque atropelaram outros que ganharam em número de votos, mas perderam na chapa. Arrisco dizer até que eles não são a cara do povo, e afirmo que não merecemos ter no poder pessoas que tão pouco nos representam.

Sanders, Hillary e Susan

Sanders, Hillary e Susan… E lá vamos nós falar das primárias. Confesso que estou acompanhando tudo pelo twitter: leio os artigos e comentários de pessoas que gosto e confio. Meu voto vai para Bernie Sanders, pois concordo com as mudanças que ele deseja fazer, mesmo tendo plena consciência de que mesmo eleito, ele não vai conseguir cumprir metade das promessas.

Democratic presidential candidate Sen. Bernie Sanders, I-Vt., smiles as a bird lands on his podium as he speaks during a rally at the Moda Center in Portland, Ore., Friday, March 25, 2016. (AP Photo/Steve Dykes)
Democratic presidential candidate Sen. Bernie Sanders, I-Vt., smiles as a bird lands on his podium as he speaks during a rally at the Moda Center in Portland, Ore., Friday, March 25, 2016. (AP Photo/Steve Dykes)

Não tenho simpatia pela Hillary e perdi o pouco que tinha depois de assistir este curto vídeo onde a senadora Elizabeth Warren explica ao entrevistador Bill Moyers, em 2004, como Hillary (senadora) votou a favor de uma legislação que tinha repelido quando era apenas a primeira dama, e como o dinheiro e influência dos bancos podem ter influenciado essa mudança de lado de Hillary.

Esse é apenas um dos motivos porque meu voto não é de HRC, e entendo porque muita gente não esta convencida de que ela seja a melhor escolha, e não Sanders.

Desde o início do mês tenho lido em vários jornais sobre a possibilidade de Sanders perder a candidatura para HRC e do perigo de que os que apoiam Sanders não votem em Hillary para presidente. Até li a sugestão (fofoca) que os independentes votariam para Trump antes de votar em Hillary e como essas pessoas estão pouco se lixando de ter Trump como presidente (ao invês de Hillary) pois são os “privilegiados” e não sofreriam consequências com Trump presidente.

Soa quase como chantagem: se Hillary ganhar a indicação e não for eleita é por culpa dos “privilegiados”. Well, ninguém é obrigado a votar num candidato que não vai representar seus interesses, ainda mais quando uma grande parcela dos eleitores de Sanders são do partido independente, e não do partido democrata de HRC. Mesmo assim, muitas pessoas que conheço e estão apoiando Sanders vão fazer aquilo que os brasileiros fazem todas eleições caso fique entre Hillary e Trump, vão votar no “menos pior“, que na opinião deles, é Hillary.

O que me deixa mais pê da vida nesta narrativa é a idéia de que as pessoas que estão apoiando o Sanders tem obrigação de apoiar Hillary. Oras, se o lado dela tem medo da Hillary perder para Trump (pesquisas mostram que ela tem poucos pontos na frente de Trump), mas nós sabemos que entre Sanders e Trump a possibilidade de Sanders ganhar é maior (pesquisas mostram Sanders tem maior pontuação na frente de Trump), por que Hillary não se afasta e anuncia seu apoio ao Sanders, transferindo assim seus votos para ele? Por que eles podem usar o pseudo “privilégio” e o apocalipse do bicho papão (Trump) para tentar chantagear eleitores a votar em quem não querem?

Essa forçação de barra já passou dos limites. Olhe só o “escândalo” da entrevista com Susan Sarandon, onde ela só disse verdades, mas esta sendo demonizada na media simplesmente porque não declarou em quem ia votar caso as eleições fossem entre Hillary e Trump. CLARO que ela não ia falar que ia votar na HRC, ela esta fazendo campanha para Sanders! E esses “jornalistas” que distorcem a narrativa para escrever matéria, que merda! Cade o profissionalismo?

A impressão que eu tenho é que o mundo esta virando o Tumblr a céu aberto.

ps.: Este autor explicou direitinho tudo que eu quis dizer acima. (em inglês)

Dirty Wars

Comecei a ler o livro Dirty Wars: The World is a Battlefield, de Jeremy Scahill, e depois de ler 10% já percebi que vai ser uma daquelas leituras que são extremamente necessárias, mas totalmente deprimentes, tipo The Shock Doutrine e Blackwater.

Ontem comecei a me perguntar por que não temos uma cultura de documentaristas e repórteres investigativos no Brasil. Achei esta lista com 174 documentários em diversas categorias, mas o que eu gostaria mesmo de ver é como a engrenagem política funciona. É um campo tão importante (somos todos tocados pela política) e tão pouco abordado que chega a ser surpreendente. Imaginei um Adam Curtis brasileiro investigando os in and outs de Brasília, expondo tudo que acontece por trás das cortinas, gerando interesse nas pessoas e quem sabe uma vontade de mudar o status quo?

Nos dia de hoje, onde até mesmo os meios de comunicação mais sérios se rendem a notícias mais inúteis, como por exemplo a ex-congressista que foi interrompida pela repórter para dar a notícia de que Justin Bieber estava saindo da delegacia (prioridades people!), o repórter investigativo deveria ser rei: é ele que cava até descobrir onde os ossos estão enterrados e traz a tona o que muita gente preferiria que continuasse escondido. Cada vez que leio ou assisto um documentário que explica o que esta acontecendo, sinto-me mais preparada para fazer escolhas que podem me afetar a longo termo. Claro que me sinto meio deprê, pois conhecimento não traz felicidade, mas só com conhecimento podemos exigir que as coisas mudem.