Cinema ou TV?

Em 2013 eu li Difficult Men: Behind the Scenes of a Creative Revolution: From The Sopranos and The Wire to Mad Men and Breaking Bad, um livro que revela como alguns shows de TV ajudaram a televisão a cabo a emergir como forma de arte no século XXI.

O livro é muito bom e, entre outras coisas, explica como o domínio do cinema é do diretor, enquanto na TV quem tende a comandar é o escritor. Pense nos seriados The Wire, The Sopranos, Mad Men e The Shield, na qualidade do script e em como esses shows pavimentaram o caminho para shows mais recentes com qualidade 10: True Detective, Westworld, House of Cards, Stranger Things só para citar os que me vieram a mente neste minuto.

Enquanto vemos mais e mais seriados excelentes no Netflix, Hulu e HBO, Showtime, o que esta acontecendo no cinema? Os grandes diretores com orçamento pré-aprovado continuam produzindo excelentes filmes, mas de maneira geral estamos sendo assolados por filmes a) de péssima qualidade criativa ou b) de super heróis.

Sim, eu assisti Wonder Woman e gostei muito, mas só de olhar os summer blockbuster e não ver nada que me dê vontade de ir o cinema é uma tristeza. Sou uma criatura do cinema, durante toda minha vida me acostumei a ir pelo menos 1 vez por semana e agora não ter vontade nem curiosidade em checar um novo filme é muito, muito triste.

Assisti vários filmes nestes últimos meses que me deixaram sem reação: Sully (meh), Deepwater Horizon (meh), A Cure for Wellness (tanto potencial, bela fotografia, mas script que derrapou do meio para o fim e não se recuperou), The Mummy (muito ruim), Life (ruim prá xuxu), Ghost in the Shell (bonito e só), The Accountant (péssimo), The Girl on the Train (péssimo), Assassin’s Creed (meh) e a lista goes on and on de filmes que vão de passáveis a péssimos, filmes com gente de calibre, tanto na direção quanto nos papéis principais e fico me perguntando o que foi que deu errado para produzirem um filme de qualidade tão questionável.

Sim, eu sei que o mercado cinematográfico visa o lucro puro e simples. Cinema é investimento: te dou U$100 milhões para fazer um filme, quero que ele retorne pelo menos U$400 milhões. Conseguir investimento para alguma coisa fora do normal, só se você fizer parte do grupo seleto de diretores com crédito pré-aprovado (aqueles de renome que ninguém ousa contradizer porque os caras já provaram que sabem o que estão fazendo). Maesmo assim, ver filmes que tem tudo para dar certo e mesmo assim, acabam sendo uma pilha de lixo, putz, é bizarro.

Claro que ainda aparece um ou outro filme que surpreende positivamente: Get Out (muito bom e engraçado), Arrival (uma bela surpresa), Elle (sensacional, um dos melhores filmes que vi nestes últimos tempos) e Personal Shopper (atmosférico, diferente, me fez pensar bastante) são os que lembro de imediato.

Felizmente cada vez mais temos qualidade nas séries de TV, que podem ser desenvolvidas por vários episódios dando profundidade aos personagem, além da liberdade criativa -pelo menos nas plataformas que citei- de produzir algo que sai do caminho batido que conhecemos.

Enfim, espero que a qualidade dos filmes consiga se recuperar, mesmo que eu seja testemunha do declínio que já vem acontecendo a alguns anos. Pelo menos posso dizer que estou feliz com a qualidade das séries de TV que estão sendo produzidas a cada ano que passa.

O Círculo (The Circle – 2017)

Semana passada assisti O Círculo, com Emma Watson, Tom Hanks, Patton Oswalt, John Boyega, Bill Paxton (RIP) e Karen Gillan. A trama gira em torno de Mae (Emma Watson) que vai trabalhar na gigante firme tecnológica Circle e aos poucos vamos descobrindo junto com ela qual é a real agenda que a empresa quer empurrar para todos.

O Círculo (The Circle - 2017)

Eu achei o filme razoável. Não é sensacional na categoria thriller, porque em nenhum momento eu fiquei na beira do assento, mas como drama ele se encaixa bem. A trama é okay, e na minha opinião poderia ter sido mais bem aproveitado, mas o problema que eu senti é que o filme saiu flat, sem alma, os personagens tem pouca profundidade e eu me vi ligando muito pouco para o que ia acontecer. Igualzinho quando entro no Instagram ou Facebook… Há-há!

É claro que o filme faz um comentário social sobre as mídias sociais e como elas podem ser usadas até o extremo, e mesmo que uma idéia seja boa “no papel” não quer dizer que nós sapiens estamos aptos a fazer o melhor uso de tal tecnologia. O mais bizarro é ver, mesmo na ficção, o quanto as pessoas estão dispostas a dividir online. Sim, eu percebo que estou dividindo minha opinião num blog na internet, mas vamos lá, até os dados médicos? Imagine toda sua vida, em detalhes, caindo nas mãos erradas? Muito assustador e creepy

Talvez o filme tenha mesmo esse “acabamento” sem alma e raso propositalmente, pois é assim como as mídias sociais de hoje em dia, e neste aspecto o diretor com certeza atingiu seu objetivo, porém com um pouco de exagero já que acaba por afastar o telespectador. Ou pelo menos eu.

Enfim, o filme não é péssimo, mas mesmo assim não recomendo caso tenha outra opção, mas se não tiver, não vai ser a pior experiência da sua vida.

Requiem for the American Dream (2015)

Recentemente assisti o documentário Requiem for the American Dream, que esta disponível no Netflix.

O documentário foi feito com filmagens ao longo de 4 anos, e nele Noam Chomsky fala sobre a concentração de riqueza e poder nas mãos de um pequeno grupo. Como a grande maioria destes documentários que falam sobre a situação em que nos encontramos, este é um tanto quanto deprimente, mas muito necessário, pelo menos para aqueles que ainda se negam em compreender o que esta acontecendo no mundo.

Acessível, ele desenrola o novelo do que nos trouxe até o momento atual, onde parecemos viver no “mundo invertido”: políticas que favorecem poucos, deixando a população comendo poeira.

Requiem for the American Dream

Uma das partes que mais me tocou no filme foi quando ele descreveu como a população americana (e eu colocaria a brasileira ai também), cada vez mais subjugada pela situação econômica e política imposta pelos políticos comprados e pagos pela elite se vira contra si mesma, acreditando no “bode expiatório” do momento (imigrantes, negros, gays, mulheres, muçulmanos, etc) enquanto os que realmente estão saqueando os cofres o fazem sem serem perturbados.

Basta prestar atenção na raiva direcionada que vemos diariamente entre as pessoas: se você é pobre, é culpa sua; se ficou doente, é culpa sua também, um imprestável; se esta tentando melhorar de vida, fugir de um regime ou uma situação econômica que o oprime, é imigrante que rouba empregos ou terrorista. Estamos com escassez de empatia e solidariedade, e isso funciona muito bem para os canalhas que estão no poder: enquanto estamos brigando entre nós, não viramos nossa atenção aos reais culpados da nossa miséria.

Essa miopia explica pessoas que serão prejudicadas por Trump terem votado nele, por exemplo. Essa miopia explica essa briga patética entre coxinhas e mortadelas no Brasil, como se os únicos a serem fodidos não fossem eles mesmos pelos políticos safados que temos por aí.

Enfim, eu super recomendo este documentário para quem deseja se inteirar um pouco mais. Ele fecha com uma nota positiva, que eu espero que seja abraçada por muitos, mas que a cética que existe em mim duvida. A sensação que tenho é que as coisas ainda precisam piorar muito até que a população acorde, descruze os braços e parta para a briga. Espero estar errada.

Elle (2016) – Resenha

Recentemente assisti Elle, com a direção de Paul Verhoeven e com a sensacional Isabelle Huppert no papel principal. O plot gira em torno de uma mulher bem sucedida, Michele, que depois de sofrer um estupro dentro da sua própria casa, busca encontrar seu agressor, e nesta busca, dá inicio a um jogo bizarro entre ambos.

Elle (2016)

Eu gosto de Paul Verhoeven, ele nos deu Basic Instint que eu adoro e Showgirls, que apesar da grande maioria não gostar e achar muito trashy, eu considero um cult clássico. Em Elle novamente nós temos a mulher forte que sabe o que quer e vai fazer o que for preciso para conseguir atingir seus objetivos, assim como as mulheres de Basic Instint e Showgirls. A diferença aqui é que Michele é mais velha, mais experiente e mais sábia do que as outras personagens de Verhoeven.

Elle (2016)

O filme é para adultos e aborda de forma super corajosa um tema que não estamos acostumados a ver com frequência: a ambivalência do desejo, do sexo e da vingança. Em uma mistura de thriller com comédia, Elle foi provavelmente o melhor filme que eu vi este ano, e é claro que eu recomendo para todos que estejam interessados em assistir algo fora do comum e que talvez o faço se sentir um pouco desconfontável.

Precisamos de mais filmes adultos, por favor!

Um dos meus pet peeves…

… é como alguns trailer de tops movies from Hollywood são feitos. Já reparou como alguns filmes que parecem ser interessantes e misteriosos acabam revelando demais nos trailers? Veja esse, por exemplo:

Você reparou o TANTO de info que o trailer deu pra gente?

  • Lindo casal com premissa de possível romance;
  • Sozinhos na nave que ia levá-los numa longa viagem;
  • Acordam antes do tempo porque algo deu errado no seus pods;
  • Futuro com robôs quase humanos;
  • O romance floresce, mas algo dá errado na nave;
  • Chris Pratt, que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente no set de Parks & Recreation, vai investigar o problema, e vai correr grande risco;
  • A nave esta em perigo, o casal também, e outros pessoas vão aparecer na trama;
  • Chris tem algo a confessar para a linda Jennifer Lawrence.

Não é MUITA info para um simples trailer de 2 minutos? Parece basicamente o filme todo, resumido.

Por que não um trailer que me deixe curiosa, mostrando menos e fazendo minha cabeça funcionar? Tipo:

Este trailer não tem fala nenhuma dos atores e faz a gente questionar o que esta vendo:

  • São dois casais que se formam?
  • As mulheres tem um caso ou estão se beijando num jogo erótico?
  • Rola sadomasoquismo?
  • Alguém gosta de ser voyeur?

É o tipo de trailer que me deixa curiosa e não entrega NADA do plot.

Eu realmente não entendo como a cabeça de alguns executivos de Hollywood funciona. Será que acreditam que quanto mais mostrarem do plot, melhor? Que talvez o plot seja minimamente difícil (risos), então é melhor já deixar meio mastigado para a audiência bobalhona via trailer? Sabendo que TUDO em um filme passa por dezenas, ás vezes centenas de mãos e olhos antes de chegar ao público, eu não compreendo como TANTA gente vê um trailer assim e não fala nada. Ou falam e alguém do topo não dá a mínima? Sei lá viu…

/fim do meu pet peeve, que pode ser traduzido como bronca.

Movies galore

Recentemente assisti vários filmes que já estavam na minha listinha de “assistir“, e em alguns casos, foi uma agradável surpresa, e em outros, nem tanto.

The Nice Guys, com Ryan Gosling e Russel Crowe eu simplesmente adorei! Dois investigadores em Los Angeles dos anos 70 tentam desvendar o aparente suicídio de uma porn star. Totalmente minha praia, a química entre os dois é excelente, o script é casadinho, tudo funciona direito. Adorei e super recomendo.

the nice guys

Queen of Earth na minha opinião ficou na categoria meh. Duas amigas que cresceram juntas, mas que estão num relacionamento mútuo passivo-agressivo. Não é péssimo, mas não me moveu. Se não fosse a excelente atuação da sempre ótima Elisabeth Moss, acho que teria não gostado do filme.

Julieta, de Pedro Almodóvar, sobre uma mulher que decide confrontar seu passado e seu distanciamento com a filha, é bom sim, mas eu já tinha lido o livro de Alice Munro que ele usou como base, até mesmo já escrevi sobre o livro aqui, então isso quebrou um pouco o encantamento, mas o filme é muito bonito e eu recomendo com certeza.

julieta

The Neon Demon, de Nicolas Winding Refn, sobre uma modelo aspirante que esta cercada de belas e invejosas mulheres dispostas a tudo para ter “aquilo” que ela tem. Putz, sou fanzoca de NWR, mas esse filme realmente me fez revirar os olhos. É LINDO, lindo, parece aquele bolo que foi cuidadosamnte decorado e produzido e que só de olhar a gente começa a salivar. Mas infelizmente, na primeira mordida vem a desilusão: tanta beleza, e nenhuma substância. Vai ver é esse mesmo o ponto que ele quis fazer com o filme, mas ainda assim ficou faltando alguma coisa. Elle Fanning é uma gracinha, mas em nenhum momento consegui comprar que ela tinha uma beleza excepcional capaz de despertar a inveja de outras modelos. Vai ver ele quis fazer um comentário com isso também, ás vezes a modelo não é a mais bela e perfeita, apenas a percepção ditada por alguém faz todo mundo acreditar que ela seja. Em nenhum outro lugar isso é mais verdade do que no mundo da moda. Talvez ele tenha feito várias coisas de maneira proposital, mas como escrevi acima, ainda ficou faltando alguma coisa. Pela beleza, recomendo. Mas vá com baixas espectativas quanto a todo o resto.

the neon demon

E finalmente, Jason Bourne. E aqui tenho que dizer, WTF!! De todos que listei aqui, este com certeza é o pior. O script é risível, com umas falhas que hoje em dia não deveriam passar: sei que estou sendo procurada, e ao invés de usar peruca, boné e andar pelas sombra, marco um encontro no meio de um movimento ativista! E por que não falar o que tenho para falar quando vou encontrar JB, ao invés de ir lá dizer para ele me encontrar em tal lugar a tal hora? Gente! E quem pluga um USB drive num computador conectado a internet? Sério? Vários furos, vários, mas não vou listar todos aqui porque não quero dar spoiler. E Alicia Vikander com a mesma expressão o filme todo. Gente, seu personagem pode ser uma sociopata, mas você não é mais o robot de Ex Machina. Enfim, não recomendo esse filme nem se não tiver nada mais para assistir. É muito ruim, quase um insulto a nossa inteligência.

Dom Hemingway

Assisti Dom Hemingway final de semana passado e Jude Law esta sensacional no papel de um bandido hedonista que acabou de sair da prisão e quer receber o que lhe é devido. Fiquei impressionada como ele se perdeu no papel e durante o filme eu não reconheci o ator, somente o personagem.

Adorei, muito mais pela atuação dele do que pelo plot, que não é ruim, mas não chega a ser excepcional.

Dom Hemingway

Only Lovers Left Alive, 2013

Semana passada assisti Only Lovers Left Alive, de Jim Jarmusch, a estória de dois amantes-vampiros que estão juntos por muitos séculos. Adorei a atuação de Tilda Swilton e do gato Tom Hiddleston. Curti a vibe romântica e delicada do filme, além do humor leve e inteligente. E plus, a trilha sonora é fantástica.

Only Lovers Left Alive

Um filme sossegado, bonito e com vampiros cheios classe e estilo. Me lembrou em parte The Hunger (os óculos escuros?) e o vampiro Louis de Pointe du Lac, de Anne Rice.