Requiem for the American Dream (2015)

Recentemente assisti o documentário Requiem for the American Dream, que esta disponível no Netflix.

O documentário foi feito com filmagens ao longo de 4 anos, e nele Noam Chomsky fala sobre a concentração de riqueza e poder nas mãos de um pequeno grupo. Como a grande maioria destes documentários que falam sobre a situação em que nos encontramos, este é um tanto quanto deprimente, mas muito necessário, pelo menos para aqueles que ainda se negam em compreender o que esta acontecendo no mundo.

Acessível, ele desenrola o novelo do que nos trouxe até o momento atual, onde parecemos viver no “mundo invertido”: políticas que favorecem poucos, deixando a população comendo poeira.

Requiem for the American Dream

Uma das partes que mais me tocou no filme foi quando ele descreveu como a população americana (e eu colocaria a brasileira ai também), cada vez mais subjugada pela situação econômica e política imposta pelos políticos comprados e pagos pela elite se vira contra si mesma, acreditando no “bode expiatório” do momento (imigrantes, negros, gays, mulheres, muçulmanos, etc) enquanto os que realmente estão saqueando os cofres o fazem sem serem perturbados.

Basta prestar atenção na raiva direcionada que vemos diariamente entre as pessoas: se você é pobre, é culpa sua; se ficou doente, é culpa sua também, um imprestável; se esta tentando melhorar de vida, fugir de um regime ou uma situação econômica que o oprime, é imigrante que rouba empregos ou terrorista. Estamos com escassez de empatia e solidariedade, e isso funciona muito bem para os canalhas que estão no poder: enquanto estamos brigando entre nós, não viramos nossa atenção aos reais culpados da nossa miséria.

Essa miopia explica pessoas que serão prejudicadas por Trump terem votado nele, por exemplo. Essa miopia explica essa briga patética entre coxinhas e mortadelas no Brasil, como se os únicos a serem fodidos não fossem eles mesmos pelos políticos safados que temos por aí.

Enfim, eu super recomendo este documentário para quem deseja se inteirar um pouco mais. Ele fecha com uma nota positiva, que eu espero que seja abraçada por muitos, mas que a cética que existe em mim duvida. A sensação que tenho é que as coisas ainda precisam piorar muito até que a população acorde, descruze os braços e parta para a briga. Espero estar errada.

Elle (2016) – Resenha

Recentemente assisti Elle, com a direção de Paul Verhoeven e com a sensacional Isabelle Huppert no papel principal. O plot gira em torno de uma mulher bem sucedida, Michele, que depois de sofrer um estupro dentro da sua própria casa, busca encontrar seu agressor, e nesta busca, dá inicio a um jogo bizarro entre ambos.

Elle (2016)

Eu gosto de Paul Verhoeven, ele nos deu Basic Instint que eu adoro e Showgirls, que apesar da grande maioria não gostar e achar muito trashy, eu considero um cult clássico. Em Elle novamente nós temos a mulher forte que sabe o que quer e vai fazer o que for preciso para conseguir atingir seus objetivos, assim como as mulheres de Basic Instint e Showgirls. A diferença aqui é que Michele é mais velha, mais experiente e mais sábia do que as outras personagens de Verhoeven.

Elle (2016)

O filme é para adultos e aborda de forma super corajosa um tema que não estamos acostumados a ver com frequência: a ambivalência do desejo, do sexo e da vingança. Em uma mistura de thriller com comédia, Elle foi provavelmente o melhor filme que eu vi este ano, e é claro que eu recomendo para todos que estejam interessados em assistir algo fora do comum e que talvez o faço se sentir um pouco desconfontável.

Precisamos de mais filmes adultos, por favor!

Zero Zero Zero, de Roberto Saviano

Terminei de ler Zero Zero Zero, de Roberto Saviano. O autor, como já tinha feito no livro anterior Gomorrah, mergulha de cabeça no assunto que esta pesquisando, e claro, com esse livro não foi diferente.

Zero Zero Zero aparentemente é o codinome que os traficantes dão a mais pura cocaína no mercado, aquela que ainda não passou de mão em mão e não foi cortada e misturada para dar mais lucro. O livro de 416 páginas é tortuoso: ele fala desde as guerras do tráfico no México, dando uma possível explicação a barbárie que acontece por lá dia-sim e dia-também, passando por Venezuela, Brasil, Europa, África, até chegar aos figurões que facilitam o transporte e lavagem do dinheiro da droga. Muita violência, muita sujeira, uma corrupção estrondosa do negócio mais rentável do mundo: cocaína.

Zero Zero Zero, de Roberto Saviano

Contrário a uns que ficaram chocados com a violência imposta aqueles que ingressam neste mundo (principalmente as guerras de facções no México), o que ficou martelando na minha cabeça são aquelas imagens que vemos frequentemente na TV de apreensões de traficantezinho de esquina com 80 reais e 10 papelotes no bolso, enquanto toneladas de coca partem dos nossos portos sem qualquer problema…

Dois momentos bem WTF são sobre os Kailibes que eu nunca tinha ouvido falar e mais tarde sobre Bruno Fuduli. Cara, Itália é o Brasil da Europa.

O que falar sobre o livro? Bom, eu não gosto do estilo de Saviano, de como ele escolhe costurar os casos ou de quando ele mesmo fala sobre o que esta escrevendo de maneira poética. Gosto de não ficção de maneira limpa, direta, com observações que vão me fazer refletir. Mesmo assim o livro vale a pena ser lido, pois tem muita informação sobre esse submundo das drogas e como atinge tudo e todos em absolutamente qualquer lugar.

E a solução para tanta violência, corrupção? Como acabar com esta empreitada criminosa? Na minha opinião, atingindo onde dói mais, no bolso dos caras. Sem dinheiro para molhar as centenas de palmas que se estendem daqui até o outro lado do Atlântico, a invencibilidade começaria a rachar. Ou talvez não, não sei.

Um dos meus pet peeves…

… é como alguns trailer de tops movies from Hollywood são feitos. Já reparou como alguns filmes que parecem ser interessantes e misteriosos acabam revelando demais nos trailers? Veja esse, por exemplo:

Você reparou o TANTO de info que o trailer deu pra gente?

  • Lindo casal com premissa de possível romance;
  • Sozinhos na nave que ia levá-los numa longa viagem;
  • Acordam antes do tempo porque algo deu errado no seus pods;
  • Futuro com robôs quase humanos;
  • O romance floresce, mas algo dá errado na nave;
  • Chris Pratt, que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente no set de Parks & Recreation, vai investigar o problema, e vai correr grande risco;
  • A nave esta em perigo, o casal também, e outros pessoas vão aparecer na trama;
  • Chris tem algo a confessar para a linda Jennifer Lawrence.

Não é MUITA info para um simples trailer de 2 minutos? Parece basicamente o filme todo, resumido.

Por que não um trailer que me deixe curiosa, mostrando menos e fazendo minha cabeça funcionar? Tipo:

Este trailer não tem fala nenhuma dos atores e faz a gente questionar o que esta vendo:

  • São dois casais que se formam?
  • As mulheres tem um caso ou estão se beijando num jogo erótico?
  • Rola sadomasoquismo?
  • Alguém gosta de ser voyeur?

É o tipo de trailer que me deixa curiosa e não entrega NADA do plot.

Eu realmente não entendo como a cabeça de alguns executivos de Hollywood funciona. Será que acreditam que quanto mais mostrarem do plot, melhor? Que talvez o plot seja minimamente difícil (risos), então é melhor já deixar meio mastigado para a audiência bobalhona via trailer? Sabendo que TUDO em um filme passa por dezenas, ás vezes centenas de mãos e olhos antes de chegar ao público, eu não compreendo como TANTA gente vê um trailer assim e não fala nada. Ou falam e alguém do topo não dá a mínima? Sei lá viu…

/fim do meu pet peeve, que pode ser traduzido como bronca.

Tim Burton no MIS

Tive a oportunidade de ir na exposição do Tim Burton 2 vezes: primeira no LACMA em 2011 e agora no MIS em São Paulo. Tim Burton, um poço de criatividade, merece muitas visitas para que a gente possa admirar todo seu talento, mas infelizmente fiquei decepcionada com a mostra em São Paulo.

Foi minha primeira visita ao MIS e confesso, me decepcionei. Esperava mais do museu em si, e infelizmente a mostra não é tão abrangente como a que vi em Los Angeles. Sei que estou acostumada a qualidade de 1º mundo (isso soa a coisa de gente metida, mas a verdade é que TODOS deveríamos exigir qualidade de 1º mundo das coisas que pagamos) e deveria ajustar minha calibragem quando passo pelo Brasil, mas não consigo. Impossível não comparar.

Achei que faltou uma certa “energia” para apreciar Tim Burton e toda sua magia, e essa é minha principal crítica. Eu sei que as exposições se dividem e não são completas em todos os países que visitam, mas a energia, o clima “Burtonesque” poderia, com sons e iluminação adequados, ser recriado para dar uma imersão maior e aquela sensação de envolvimento com o que estávamos vendo.

Tim Burton

Enfim, pelo menos dei sorte e o museu estava vazio e pudemos ver tudo com calma e sem empurra-empurra. Adorei o escorregador, bateu descer as escadas com certeza. 😉

Café Society Trailer Oficial

Parece interessante e Woody Allen sempre cai bem, mas Jesse e Kristen juntos de novo? Ainda lembro deles fazendo par romântico em American Ultra. Espero não ficar fazendo conecção entre eles enquanto assisto o filme, pois infelizmente foi o que eu fiz durante o trailer. 😒

My Struggle: Book 1, de Karl Ove Knausgaard

My Struggle: Book 1, é o primeiro dos 6 volumes autobiográfico do autor norueguês Karl Ove Knausgaard. Comparado a Proust, a coleção abrange momentos de grande importância na vida do escritor e ele não se esquiva de falar de absolutamente nada: morte, família, amor, vicio, arte, medo e os detalhes mais íntimos de sua vida como ela foi vivida. Tudo esta ali, escancarado para o mundo inteiro ler.

Duramente criticado pela família que viu essa “invasão de privacidade” como uma grande traição, ao mesmo tempo que a mídia norueguesa investigava cada milímetro da vida do autor, a saga explodiu na Noruega e só recentemente foi lançada em inglês.

My Struggle: Book 1, de Karl Ove Knausgaard

Fiquei curiosa sobre o livro e autor depois de ler um artigo sobre ele no New Republic. Curiosa, mas desconfiada, pois não tenho muita paciência para longas divagações biográficas, comecei o 1º volume no final de Março e terminei as mais de 400 páginas em 1 mês. Logo de cara fui fisgada. Lendo sobre a família, sua adolescência e seu desejo de escrever despertou memórias em mim que eu nem mesmo sabia que estavam guardadas. A linguagem dele é simples, mas poética. A vida, as sensações, as frustrações, os desejos, as explicações, a vida vivida por nós, ou no caso, a minha e a dele, nascidos em países tão distantes e com culturas tão opostas, e mesmo assim, a vida interior experimentada de maneira tão análoga. Foi perturbador em vários momentos ver as semelhanças, principalmente nos erros, mas não deixou de ser um “mimo” se enxergar em outro.

Eu tenho uma teoria de que somos mais semelhantes do que gostaríamos de ser, e nossas emoções, também limitadas, se repetem em todos nós infinitamente. O primeiro amor, a busca da aprovação dos pais, as amizades, a adolescência, o início da vida adulta, a morte de um familiar. Todos nós experimentamos isso e a maioria já passou pelo leque de emoções que essas vivências proporcionaram. Por isso é fácil sentir-se lá, junto com ele, enquanto lemos sobre seus momentos mais íntimos.

Eu entendo o sentimento de traição da família dele, mas na minha opinião Karl Ove fez muito mais do que expor toda sua família, ele desnudou-se em My Struggle: Book 1, e justamente por isso o livro diz mais sobre ele mesmo do que sobre a família.

Dito isso, eu simplesmente amei o 1º volume, mesmo que não tenha sido fácil de ler. Muitas interrupções para que eu pudesse pensar na minha própria vida, nas minhas experiências. Estou desejosa de ler o 2º volume, mas vou dar um tempo para que as idéia e impressões de My Struggle: Book 1 se assentem.

Para comprar: Amazon

Para saber mais: GoodReads