Brasil, Impeachment e Eleições

Domingo assisti a votação do impeachment que esta acontecendo no Brasil. Dizer que fiquei desapontada com a maioria das coisas que ouvi é pouco. Fiquei horrorizada com a falta de decoro, a ausência de sobriedade e o grave display de “vale tudo” demonstrado pela esmagadora maioria. Quase todos citando deus, falando da família brasileira (?), outros urrando contra a corrupção mesmo com processos de corrupção nas costas, uns segurando plaquinha de “tchau querida” que já seria de péssimo gosto num estádio esportivo, e que absolutamente não deveriam estar num momento sério como a votação de um impeachment. Isso sem falar nos dois, pai e filho, que “bateram continência” a um conhecido torturador e ao ano de 1964 e o que ele representa na história do Brasil. Onde eu esperava compostura e lucidez, vi exatamente o contrário.

Alguns podem dizer que Brasil é isso mesmo, que estou sendo ingênua, que é claro que os políticos iriam usar aqueles 15 segundos para aparecer e fazer da votação seu trampolim. Podem dizer também que é óbvio esses políticos se comportarem assim, eles são o espelho da sociedade e basta olhar ao redor para confirmar isso. Ou para sedimentar ainda mais os prejulgamentos, dizer que esses sujeitos foram eleitos pelo povo, então aquela máxima se encaixa: o povo tem o político que merece.

Embora muita gente pareça ter entrado num transe hipnótico que lhe impede de compreender o outro, ignorando tudo que não for de acordo com aquilo que já decidiu ser a verdade, eu acredito que tem muito mais gente esclarecida hoje do que no passado. Excluindo os religiosos extremistas com os quais não consigo conversar, constantemente me deparo com a lucidez e compreensão do “estado das coisas” de pessoas que carregam nas costas a culpa de, supostamente, terem dado seu voto a tantos políticos canalhas.

Mas foi surpreendente descobrir que, daqueles 513 de domingo, apenas 36 se elegeram com seus próprios votos e todos os outros foram “puxados” pelas suas chapas. Eu não sabia destas tecnicalidades, mas aprendi num artigo no site da Agência Câmara Notícias que funciona assim, e eu cito:

“Com 1,52 milhão de votos, Russomanno foi o deputado mais votado de São Paulo e “puxou” quatro candidatos para a Câmara: além de Fausto Pinato, ele ajudou a eleger o cantor sertanejo Sergio Reis (45,3 mil votos); Beto Mansur (31,3 mil) e Marcelo Squasoni (30,3 mil). Todos são do PRB, já que o partido não fez coligação.

O segundo colocado em São Paulo, deputado Tiririca (PR), teve pouco mais de 1 milhão de votos e elegeu sozinho dois deputados, além de si próprio: Capitão Augusto (46,9 mil votos) e Miguel Lombardi (32 mil), ambos do PR, que também não se coligou.”

Ficou claro que com este “sistema proporcional” muitas pessoas se elegem com um número de votos inexpressivo, enquanto outros que receberam maior número de votos não se elegem. Por exemplo, o deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB) recebeu 106,6 mil votos em São Paulo, mas não foi reeleito. Já o candidato Fausto Pinato (PRB) foi eleito com 22 mil votos por causa da votação expressiva de Celso Russomanno, do mesmo partido.

Isso mostra que se você entra numa chapa com um deputado forte e/ou muito conhecido, que vai ganhar muitos votos (por exemplo, Tiririca), pode se eleger porque é “puxado“, mesmo que tiver 10 mil votos. Se eleger assim é relativamente fácil, já que você não precisa nem convencer milhares de pessoas a votar em você: o que é preciso é usar a cabeça, as amizades e conecções feitas ao longo dos anos de puxa-saquismo, fazer bons conchavos e entrar numa chapa vencedora.

Brasil, Impeachment e Eleições

Hoje fui linkar o artigo original no site da Câmara e, surpresa!, ele foi EDITADO. Até mesmo o título do artigo mudou de “Apenas 36 deputados se elegeram com seus próprios votos“, que você pode ver ainda consta na URL da página para “Eleição para a Câmara dos Deputados segue o modelo proporcional previsto na Constituição“. Tiraram os exemplos de Russomano e Tiririca e  colocaram a explicacão do TSE de como funciona a votacão.

Por que mudaram o artigo? Tire suas próprias conclusões…

O importante é lembrar deste fator nas próximas eleições e sempre verificar quem esta na chapa do seu candidato, pois junto com aquele preferido você pode ajudar a eleger um monstro/corrupto/incompetente/cabra safado. É legal ressaltar que a grande maioria destes senhores e senhoras eleitos não estão lá por escolha da maioria, mas sim porque atropelaram outros que ganharam em número de votos, mas perderam na chapa. Arrisco dizer até que eles não são a cara do povo, e afirmo que não merecemos ter no poder pessoas que tão pouco nos representam.