A Man in Love, Karl Ove Knausgård

Terminei o 2º volume de Min kamp, A Man in Love, de Karl Ove Knausgård. O 1º volume me acertou em cheio, eu adorei, mas este foi mais complicado para mim…

Neste, como o título já deixa claro, ele retrata sua vida a partir do momento em que deixa a sua primeira esposa, a sua necessidade de “fugir”, a mudança e adaptação em Estocolmo e a paixão por sua esposa atual, Linda.

A Man in Love, Karl Ove Knausgård

Neste volume ele entra em detalhes da vida do casal: como se sente ao virar pai e as dificuldades de criar filhos, o desejo intenso de escrever, a amizades com outros escritores, em particular seu amigo Geir, etc.

Igual ao 1º volume, ele fala do íntimo de uma maneira quase universal e eu acho isso sensacional. Eu duvido muito que uma pessoa ao ler este livro, ou algum desta série, não tenha passado por situações ou sentimentos similares. Isso que ele sabe fazer tão bem, as questões, as angustias, os desejos que nos parecem tão únicos, tão pessoais “ninguém entendo porque não passaram por isso” são na realidade banais, outras milhares de pessoas já sentiram ou passaram por algo similar. A única coisa que faz a sua situação especial é que ela é sua.

A narrativa de Karl Ove é cativante como no 1º volume, parece que estou conversando com um amigo, o ouvindo relatar seu dia, suas angustias, sua vida. O problema é que eu tolero muito pouco os problemas relacionados a amor, casamento, viva conjugal. Eu já passei por isso, já tive minha cota de relacionamentos e ouvir sobre o dos outros é bem broxante. Não leio romance por esse motivo.

Não sou o tipo de pessoa que quer saber quem esta namorando quem, como esta o relacionamento de fulano ou sicrano ou se alguém esta traindo, isso não me importa, então um bom pedaço deste livro foi um tanto quanto aborrecido para o meu gosto. Não ajuda nada que o relacionamento deles me pareça um pouco disfuncional.

Tirando meu desgosto por esse pedaços, o resto do livro em que ele trata da vida, da mudança, da adaptação a nova cidade, os relacionamentos interpessoais e até mesmo da criação das crianças, é muito bom, tocante.

Super recomendo a leitura, principalmente se você leu o 1º volume. Eu vou continuar com os outros volumes, mas não agora. Este é o tipo de livro que faz a gente pensar, então vou dar um espaço de tempo até pegar o 3º volume.

O Círculo (The Circle – 2017)

Semana passada assisti O Círculo, com Emma Watson, Tom Hanks, Patton Oswalt, John Boyega, Bill Paxton (RIP) e Karen Gillan. A trama gira em torno de Mae (Emma Watson) que vai trabalhar na gigante firme tecnológica Circle e aos poucos vamos descobrindo junto com ela qual é a real agenda que a empresa quer empurrar para todos.

O Círculo (The Circle - 2017)

Eu achei o filme razoável. Não é sensacional na categoria thriller, porque em nenhum momento eu fiquei na beira do assento, mas como drama ele se encaixa bem. A trama é okay, e na minha opinião poderia ter sido mais bem aproveitado, mas o problema que eu senti é que o filme saiu flat, sem alma, os personagens tem pouca profundidade e eu me vi ligando muito pouco para o que ia acontecer. Igualzinho quando entro no Instagram ou Facebook… Há-há!

É claro que o filme faz um comentário social sobre as mídias sociais e como elas podem ser usadas até o extremo, e mesmo que uma idéia seja boa “no papel” não quer dizer que nós sapiens estamos aptos a fazer o melhor uso de tal tecnologia. O mais bizarro é ver, mesmo na ficção, o quanto as pessoas estão dispostas a dividir online. Sim, eu percebo que estou dividindo minha opinião num blog na internet, mas vamos lá, até os dados médicos? Imagine toda sua vida, em detalhes, caindo nas mãos erradas? Muito assustador e creepy

Talvez o filme tenha mesmo esse “acabamento” sem alma e raso propositalmente, pois é assim como as mídias sociais de hoje em dia, e neste aspecto o diretor com certeza atingiu seu objetivo, porém com um pouco de exagero já que acaba por afastar o telespectador. Ou pelo menos eu.

Enfim, o filme não é péssimo, mas mesmo assim não recomendo caso tenha outra opção, mas se não tiver, não vai ser a pior experiência da sua vida.

Twin Peaks (2017- )

O que dizer sobre Twin Peaks? Depois de 25 anos David Lynch e Mark Frost retomam a trama e, aparentemente, com total liberdade para fazer aquilo que sabem fazer de melhor: transportar a gente para um universo fantástico.

Fiquei protelando sobre o que escrever a respeito do retorno, e quanto mais eu penso mais me parece claro que para aproveitar Lynch você precisa estar aberto ao que ele quer lhe mostrar. É preciso deixar nossas idéias de como o plot de um show de TV deve se desenrolar de lado e simplesmente se deixar levar.

O 1º episódio foi o mais difícil para mim neste aspecto porque eu tinha me esquecido como Lynch é diferente, então senti uma certa resistência interior e disse “mas o que diabos esta acontecendo?“. Mas daí eu percebi que deveria simplesmente largar minha ideias pré-estabelecidas e deixar rolar.

Lynch mistura momentos bizarros com outros extremamente ordinários e isso faz toda a diferença, faz a gente de alguma maneira se sentir imerso na trama. Um exemplo disso é a cena onde Harry Dean Stanton esta no parque e vê mãe e filho brincando. O que aconteceu antes, a conversa que ele teve no carro, e o que acontece a seguir, aquilo foi ultra real e tocante.

Outra situação, esta um tanto bizarra e que pode parecer engraçada, mas na realidade muito triste, é “Dougie Jones” e como ninguém parece perceber a situação que ele se encontra. Senti ali um reflexo e uma certa crítica dos tempos em que vivemos.

Tudo faz sentido quando a gente pára de olhar somente na superfície, diferente de como acontece com a grande maioria dos shows onde tudo é mastigadinho e reduzido para a compreensão do telespectador.

Claro que eu não quero dizer que precisa ultra-analizar tudo ou que somente pessoas com um certo intelecto que vão conseguir entender ou apreciar Twin Peaks, longe disso.

Depois do episódio de semana retrasada “Gotta Light” eu acredito que para apreciar o que Lynch nos oferece é preciso um certo olhar e uma certa entrega. É apenas um programa de tv, mas oferece um pouco mais do que isso se você permitir.

Twin Peaks RR

Pode ser que eu esteja muito ligada a Twin Peaks e ao seriado original que marcou momentos da minha vida, e se for isso, bom, mesmo assim eu recomendo a série. Atores e elenco de cair o queixo, direção de arte, fotografia e trilha sonora fenomenal, e o mistério vai deixar você na beirada no assento.

Se você não assistiu a série original talvez sinta dificuldade em sacar o que esta rolando, então eu recomendo assistir o filme de David Lynch Fire Walk with Me, pois ele é a base para entender muitas coisas que estão acontecendo.

Para quem tem tempo e paciência, melhor assistir a série original, em seguida ao filme e depois começar por esta de 2017.

American Gods (2017- )

Apesar de não estar acompanhando séries e filmes tanto quanto antes, pelo menos assisti a 2 ótimos TV shows este ano. O primeiro foi American Gods, cuja 1ª temporada já acabou e que foi uma agradável surpresa.

O plot, adaptado do livro de mesmo nome de Neil Gaiman (sim o mesmo que escreveu meu comic favorito de todos os tempos, Sandman) gira em torno de Shadow Moon, um homem que esta prestes a sair da prisão e retomar sua vida com sua esposa.

American Gods

O problema é que ela morreu em um terrível acidente e na viagem de Shadow para o funeral ele inicia uma conversar com o estranho homem no assento ao lado dele.Este homem se chama Mr. Wednesday e ele sabe mais sobre o Shadow do que parece. Ele avisa que uma tempestade está chegando e a partir daí as coisas começam a acontecer.

American Gods

Eu não li o livro, então não posso opinar sobre o quanto a adaptação esta seguindo, mas o show como stand-alone, ah, gostei bastante. É interessante, curioso, tem suspense e humor na dose certa. A trilha sonora é ótima e os personagens são interessantes até mesmo quando não simpatizamos muito com eles.

O que pode deixar algumas pessoas um pouco chocadas é a abundância de violência e sexo presentes na trama, apesar de dentro do contexto e que na minha opinião foram feitas artisticamente, logo se você não se ofende e curte séries que misturam fantasia e mitologia, eu super recomendo. A 1ª temporada já acabou, então agora é esperar até 2018 pela 2ª, que promete.

Empatia em baixa

Ontem assisti um vídeo no Youtube onde um gringo falava de maneira superficial sobre alguns políticos americanos (Bernie Sanders é um deles, o mais vocal) em busca de um salário mínimo de U$15/hr, e pedia para as pessoas deixarem suas opiniões nos comments.

Bom, vale lembrar que se o salário mínimo fosse ajustado de acordo com o standard of living americano deveria ser de U$21.16/hr. Ou seja, U$15 ainda é pouco, mas com certeza é bem melhor do que os U$7.25 em vigor em alguns estados.

Qualquer pessoa com um pouco de bom senso concorda que sim, claro, devemos exigir melhores salários. É impossível sobreviver dignamente ganhando tão pouco, ainda mais quando sabemos que companhias como o Walmart e outras gigantes da indústria fast-food tem uma margem de lucro astronômica e seus CEOs ganham infinitamente mais do que seus funcionários. Uma melhor distribuição dos lucros é o mínimo que deveríamos esperar de uma sociedade que busca o bem dos seus cidadãos, certo?

Para minha surpresa, a grande maioria das pessoas (o canal é direcionado a jovens de 16-24 anos) nos comentários se mostraram CONTRA: “se aumentarem o salário, vão robotizar tudo” (isso já esta previsto para acontecer nos próximos 5/10 anos, independente do aumento do salário mínimo); “é injusto eles ganharem 15 dólares quando eu fui para a faculdade e ganho apenas 14 como desenhista e ilustradora” (eu avisei que ela era underpaid e não deveria aceitar tal salário já que tinha faculdade); “minha mãe ganha apenas U$7.25, não acho justo outros ganharem mais” sendo que a mãe dele também seria beneficiada com a mudança…

Enfim, um verdadeiro shitty-show de opiniões que demonstram nenhum bom argumento contra o aumento de salário (tenho certeza que existem bons argumentos, só não os encontrei ali) mas esbanjam uma raiva inexplicável daqueles que eles consideram “piores”, que no caso são pessoas que trabalham em fast-food fritando hambúrgueres ou nos walmarts da vida, por exigirem melhores salários mas serem “preguiçosos” e não irem em busca de melhores empregos.

Poucos foram os comentários que citaram os salários milionários, ou como melhores salários aquecem a economia (as pessoas gastam mais quando ganham mais), ou que a robotização é inevitável, ou que os salários estão estagnados, e os poucos que fizeram essas observações, como eu, foram prontamente ignorados. É aquela sensação de “saia daqui com seu bom senso, me deixe com o que eu SINTO ser verdade“.

Fiquei abismada com a miopia (falei aqui no post de ontem sobre o documentário de Noam Chomsky), mas não totalmente surpresa. Além da miopia que os impede de ver que possivelmente seriam beneficiados pelas mudanças, existe a falta total de empatia com o outro ser humano, aquele desejo básico de que todas as pessoas possam ter uma vida decente e um trabalho que supra pelo menos suas necessidades básicas. O outro é muito abstrato, muito distante, “não tem nada a ver comigo”.

Parece até a desumanização do outro, um lance que fazem com os soldados quando eles vão a guerra para não sentirem culpa por estarem matando outros seres humanos: o outro não é como eu, o outro me detesta, o outro não respeita as mesmas coisas nem tem os mesmos valores que eu, logo, se for aniquilado eu não me importo.

É assustador perceber isso, mas o lado positivo é que sabendo o sintoma, é mais fácil ficar imune a essa lavagem cerebral, ao mesmo tempo que podemos ser os agentes de cura, tentando apontar onde as falhas de lógica e percepção estão acontecendo. E torcer para que tenham curiosidade o suficiente para tirarem as vendas e olharem os outros como iguais.