Sobre o presidente eleito…

Tenho pensando muito no resultado das eleições Americana. Bernie era o meu candidato, mas depois que ele perdeu para Hillary, mesmo não tendo simpatia por ela, Hillary se tornou minha opção, já que Trump estava a 180 graus distante de tudo que eu acho correto e moral.

Eu vivi o 9/11 e tudo que veio depois. Me lembro exatamente o mal-estar que senti quando vi o exército na Queensboro Bridge no dia 12 de setembro de 2001, barrando e inspecionando todos veículos que iam cruzar a ponte para Manhattan. Soube que a partir daquele momento as coisas iriam mudar, NYC e a América do dia 10 de Setembro tinham ficado para trás.

E como todos nós sabemos, as mudanças vieram, muitas delas abriram portas que jamais deveriam ter sido abertas, como a guerra no Iraque e o programa de vigilância nacional.

Hoje eu sinto exatamente o mesmo mal-estar. Iniciamos um novo capítulo, e tenho medo do que pode acontecer. Minha preocupação inicial é com meus amigos que não se encaixam no perfil de “pessoas boas” do presidente eleito.

Em seguida vem a preocupação com o clima, com os direitos adquiridos pela comunidade LGBT que podem ver retrocesso em suas conquistas (como o reverso da lei anti-discriminação no trabalho), com os direitos reprodutivo das mulheres (leis sobre o aborto e obrigação dos seguros de saúde pagarem por anticoncepcionais) e perseguição aos muçulmanos, negros e hispanos. Sem falar no Obamacare, que pode deixar mais de 20 milhões de pessoas sem cobertura.

Existe a preocupação com fatores ainda maiores, como proliferação de armas nucleares em países que não devem ter acesso a este tipo de armamento e aliança com regimes “sombrios” onde América simplesmente promete olhar para o outro lado enquanto países tem sua soberania invadida e população massacrada.

Estou tentando não me precipitar, não pensar o pior, e me ater ao fato de que o presidente eleito é um bozo que provavelmente não vai conseguir fazer 1/3 das coisas que prometeu.

Minha esperança esta na população. Apesar do choque de saber que milhões de pessoas que se dizem não xenófobos, racistas, anti-semitas e misóginos não se importam em eleger um sujeito que seja; e aqueles outros milhões que são de fato racistas, xenófobos, anti-semitas e misóginos e não tem vergonha nenhuma de admitirem, temos a esmagadora maioria que não se encaixa em nenhum destes 2 grupos, que sabe distinguir o certo / errado, que não deseja que todos vivam de acordo com sua filosofia de vida, que possui senso de cidadania e comunidade e ainda acredita naquela máxima “ame o próximo como a si mesmo”, mesmo que essa esmagadora maioria não tenha aparecido para votar.

Estou super confiante de que, ao contrário dos brasileiros, os americanos tem um história de luta pelos seus direitos e não vão simplesmente ficar sentados vendo seu país ser destruído por um narcisista alaranjado. As pessoas vão se levantar, vão as ruas, vão lutar contra o que é errado.

É isso que esta me sustentando no momento.

Elle (2016) – Resenha

Recentemente assisti Elle, com a direção de Paul Verhoeven e com a sensacional Isabelle Huppert no papel principal. O plot gira em torno de uma mulher bem sucedida, Michele, que depois de sofrer um estupro dentro da sua própria casa, busca encontrar seu agressor, e nesta busca, dá inicio a um jogo bizarro entre ambos.

Elle (2016)

Eu gosto de Paul Verhoeven, ele nos deu Basic Instint que eu adoro e Showgirls, que apesar da grande maioria não gostar e achar muito trashy, eu considero um cult clássico. Em Elle novamente nós temos a mulher forte que sabe o que quer e vai fazer o que for preciso para conseguir atingir seus objetivos, assim como as mulheres de Basic Instint e Showgirls. A diferença aqui é que Michele é mais velha, mais experiente e mais sábia do que as outras personagens de Verhoeven.

Elle (2016)

O filme é para adultos e aborda de forma super corajosa um tema que não estamos acostumados a ver com frequência: a ambivalência do desejo, do sexo e da vingança. Em uma mistura de thriller com comédia, Elle foi provavelmente o melhor filme que eu vi este ano, e é claro que eu recomendo para todos que estejam interessados em assistir algo fora do comum e que talvez o faço se sentir um pouco desconfontável.

Precisamos de mais filmes adultos, por favor!

The Fall (TV Série) – Resenha

E chegou ao fim a série The Fall, onde a detetive Stella Gibson investiga Paul Spector, um serial killer perverso, com fetiches sado-bondage, que persegue mulheres com um certo perfil. Um série lenta, que levou o tempo para chegar onde queria, bem do jeitinho que eu gosto.

Gillian Anderson como Stella Gibson esta simplesmente sensacional: arrisco dizer que é um dos personagens femininos mais fortes destes últimos tempos. Profissional, certeira, humana, o rosto dela em diversos momentos é pura poesia. Jamie Dornan como o perverso Paul Spector também dá um show de interpretação: em momentos a gente quase esquece que ele é um doente narcisista que não consegue sentir nada por ninguém, salvo talvez pela sua filhinha.

The Fall

O final da série foi bombástico e surpreendente, confesso que eu não imaginei aquele final, mas entendo de onde veio a motivação. O que me deixou triste é saber que não teremos mais Stella, já que a série terminou com um ponto final.

Série aparte, uma coisa que me moveu a escrever aqui foi a reação que tenho visto nas redes sociais e mesmo no IMDB em relação a personagem Stella Gibson:

Spoiler

Outra coisa chocante são as pessoas no IMDB que chamam Stella de vagabunda porque ela decide com quem ir para a cama e para quem dizer não. Como assim gente, estamos em 2016, uma mulher pode ser uma excelente profissional e ter uma vida sexual saudável também.

The Fall

É por essas e outras que vejo como uma personagem fictícia como Stella Gibson ainda esta longe de ser o normal, tanto nas telas quanto na vida real, enquanto um Don Draper (de Mad Men) passa sem trazer crítica ao seu comportamento sexual.

Enfim, vamos torcer para que no futuro Stella Gibson volte em outro caso, pois precisamos de séries deste calibre e de mulheres donas de seu destino.

Suicide Squad (2016) – Resenha

Depois de meses, finalmente decidi assistir Suicide Squad, e na boa, sem querer ofender os fanboys e fangirls out there, seria melhor se eu não tivesse assistido. O filme é muito ruim. Os personagens são de papelão, e por isso não dá para exigir que os atores façam milagre com o conteúdo.

Achei um cacete os vilões toda hora ficarem lembrando a audiência de que eram os caras ruins. C’mon! Um personagem bem escrito, vilão ou não, mas com profundidade e humanidade faz o público simpatizar e torcer por ele.

Suicide Squad (2016)

E tem aquelas coisas que não fazem sentido, como no caso do Joker com Harley Quinn: por que fazer um caso de amor quando nós sabemos via comics que o relacionamento deles é totalmente fucked, que Joker é incapaz de sentir amor e Harley é só um acessório. A vibe “amor-romantico” que o diretor criou foi péssima.

Will Smith, eu gosto de Will, mas na minha opinião ele estava como sempre esta em seus filmes: um cara preocupado com seus filhos. Nem de longe ele parece um assassino profissional, frio e calculista. Never, jamé.

Teve o personagem australiano que eu não consegui entender 50% do que ele falava, além dos outros coitados: Viola Davis muito mal aproveitada; Joel Kinnaman duro como um pedaço de pau e Cara Delevingne que também não convenceu, mas até ai, a culpa destes atores não terem desenvolvido nada que valha a pena foi provavelmente do script.

A conclusão que eu cheguei é que qualidade esta virando coisa do passado. Os studios lançam esses blockbusters várias vezes ao ano, fazem um hype gigantesco, sempre com super heróis e vilãos que são queridos por uma grande maioria e pimba, dobram o investimento com um produto mediocre. E ano que vem, rinse & repeat.

Tô meio cheia de filmes assim. Pelo menos não gastei uma fortuna para ver essa droga no cinema…

Veredito: se não viu, não perca seu tempo, é uma pilha de estrume fumegante.

Zero Zero Zero, de Roberto Saviano

Terminei de ler Zero Zero Zero, de Roberto Saviano. O autor, como já tinha feito no livro anterior Gomorrah, mergulha de cabeça no assunto que esta pesquisando, e claro, com esse livro não foi diferente.

Zero Zero Zero aparentemente é o codinome que os traficantes dão a mais pura cocaína no mercado, aquela que ainda não passou de mão em mão e não foi cortada e misturada para dar mais lucro. O livro de 416 páginas é tortuoso: ele fala desde as guerras do tráfico no México, dando uma possível explicação a barbárie que acontece por lá dia-sim e dia-também, passando por Venezuela, Brasil, Europa, África, até chegar aos figurões que facilitam o transporte e lavagem do dinheiro da droga. Muita violência, muita sujeira, uma corrupção estrondosa do negócio mais rentável do mundo: cocaína.

Zero Zero Zero, de Roberto Saviano

Contrário a uns que ficaram chocados com a violência imposta aqueles que ingressam neste mundo (principalmente as guerras de facções no México), o que ficou martelando na minha cabeça são aquelas imagens que vemos frequentemente na TV de apreensões de traficantezinho de esquina com 80 reais e 10 papelotes no bolso, enquanto toneladas de coca partem dos nossos portos sem qualquer problema…

Dois momentos bem WTF são sobre os Kailibes que eu nunca tinha ouvido falar e mais tarde sobre Bruno Fuduli. Cara, Itália é o Brasil da Europa.

O que falar sobre o livro? Bom, eu não gosto do estilo de Saviano, de como ele escolhe costurar os casos ou de quando ele mesmo fala sobre o que esta escrevendo de maneira poética. Gosto de não ficção de maneira limpa, direta, com observações que vão me fazer refletir. Mesmo assim o livro vale a pena ser lido, pois tem muita informação sobre esse submundo das drogas e como atinge tudo e todos em absolutamente qualquer lugar.

E a solução para tanta violência, corrupção? Como acabar com esta empreitada criminosa? Na minha opinião, atingindo onde dói mais, no bolso dos caras. Sem dinheiro para molhar as centenas de palmas que se estendem daqui até o outro lado do Atlântico, a invencibilidade começaria a rachar. Ou talvez não, não sei.